The Next Convergence: The future of economic growth in a multispeed world, por Michael Spence

Este livro é em grande parte consequência de um relatório preparado pela Comission on Growth and Development organizada pelo Banco Mundial em 2006. Esta Comissão incluía, além de académicos, um vasto número e políticos eminentes de diversos países; um relatório completo dos trabalhos da Comissão foi publicado oportunamente, mas como é evidente, trata -se de um texto muito detalhado tecnicamente e mais orientado para interessados mais conhecedores da matéria.

Escrito por Michael Spence que detém o Prémio Nobel de Economia de 2001 tem um propósito mais pedagógico, mais próximo da divulgação e explicação dos temas que irão forjar o futuro da economia mundial.

Após tantas exposições sobre os efeitos da crise financeira e das suas causas, este livro está orientado para o futuro. O futuro dos países pobres, dos emergentes e dos desenvolvidos, já depois da crise ter estalado.

Organizado em pequenos capítulos, de leitura muito fácil em que se evitam os termos técnicos que poderiam afastar os leitores, é verdadeiramente um livro exemplar de simplicidade e de acuidade.

Temos oportunidade de ver os dilemas dos países pobres para se integrarem na economia global, dos países emergentes, dos desafios enormes que países como a China, a Índia ou o Brasil têm pela frente, das dificuldades que os mais avançados podem esperar.

Não há aqui previsões, antecipações, adivinhações. Não estamos perante um jornalista que faz a sua fortuna com banalidades e algumas estatísticas, mas sim perante um autor profundamente conhecedor da teoria económica actual e que teve o proveito de ouvir as opiniões experimentadas de políticos de diversos quadrantes e origens, e de académicos pouco atraídos pelas simplificações.

É assim que podemos beneficiar de um texto que sem por em causa os benefícios do sistema capitalista, como forma de garantir um crescimento económico potencialmente abrangente, coloca prementes questões acerca da intervenção de poderes públicos em diferentes contextos. Não há uma receita uniforme, aliás a palavra receita aqui é mal empregue, porque o autor limita-se mais a enunciar os problemas diferentes que os países têm do que a sugerir soluções.

A China enfrenta problemas muito sérios, mas diversos do que tem a Índia e ainda mais distantes das dificuldades do Brasil.

Mas há alguns pontos comuns: por exemplo, o autor insiste na necessidade de o crescimento económico, quer em países desenvolvidos quer em mais pobres, atinja todas as camadas da população, que seja inclusivo nas suas palavras: sem isso muitas das opções políticas serão bastante mais difíceis de tomar, precisamente porque uma parte, que pode ser substancial da população, rejeita as decisões políticas porque não está em condições de beneficiar delas.

O autor é aliás conhecedor do processo de integração europeia, evidenciando uma visão bastante correcta dos problemas e dos dilemas que a União Europeia presentemente enfrenta, nomeadamente a necessidade de os seus membros cederem uma parcela significativa da sua soberania e m matéria orçamental e regulatória para a boa gestão da política monetária e da sustentabilidade do sistema financeiro.

As suas reflexões sobre os problemas ambientais são igualmente de uma lucidez e bom senso assinaláveis. Apesar de considerar muito positivo o sistema cap and trade em vigor na Europa, é mais ponderado quanto a uma expansão deste sistema para todos os países. E sobretudo é crítico em relação a uma solução global e à indicação de metas a respeitar por todos, preferindo que os países tenham compromissos menos firmes mas provavelmente mais realistas.

Uma outra reflexão, das muitas pertinentes que advoga, reside na liberalização do comércio internacional. Embora o autor seja favorável, e considere indispensável a conclusão do processo de Doha, que como se sabe está paralisado, nem por isso é um defensor da liberalização a todo o custo. É muito sagaz na defesa de certas prerrogativas indispensáveis aos países menos prósperos, argumentos que se fossem incorporados no processo negocial poderiam desbloquear alguns dos impasses existentes.

Este é um livro altamente recomendável; seria de toda a conveniência que fosse editado em português. Porque é um livro que concilia a teoria com a situação actual, que expõe os problemas que afectam todos os países de uma forma sucinta e clara, que aponta caminhos sem descurar os obstáculos que podem aparecer, que não esconde as dificuldades que muitos, senão todos os países terão com a globalização, mas que mantém um optimismo reflectido sobre a capacidade dos políticos e dos académicos em encontrar as soluções que façam da globalização um processo benéfico para todos.

Não temos que estar sempre de acordo com o autor como é evidente; mas temos sempre proveito em conhecer as suas opiniões.