The Great Transformation. The Political and Economic Origins of Our Time, por Karl Polanyi

Este livro, (Beacon Press, Boston, 2001), primeiramente publicado em 1944 teve um impacto enorme nos países de língua inglesa. A edição publicada mais recentemente tem um prefácio de Joseph Stiglitz que lhe dá obviamente o devido valor.

A data da primeira edição não se afasta muito da primeira edição de um outro livro famoso, ”The Road to Serfdom” de von Hayek; ao lado um do outro são ainda hoje porventura os livros que melhor exemplificam duas visões do sistema capitalista: uma, a deste livro, em que se explica pacientemente e se descreve a evolução histórica que conduziu aos esforços de regulamentação como necessidades absolutas para o equilíbrio das sociedades e da eficiência do sistema, e outra, a de Hayek, que considera que a regulamentação do sistema é um modo de caminhar para o socialismo, cujo efeito é a criação de uma nova classe de servos.

Polanyi faz uma descrição dos antecedentes da Revolução Industrial Inglesa que deixa qualquer pessoa em estado de choque, pela devastação provocada na população rural na sequência da supressão dos baldios. Descreve ainda os efeitos da Revolução Industrial Inglesa e as suas misérias.

O estado geral de pobreza prolongou -se por tanto tempo na sociedade inglesa, ao longo de gerações que ninguém verdadeiramente o compreendia. Mesmo os espíritos mais notáveis da época, homens como David Ricardo, Adam Smith não apresentam nenhuma explicação. Parece que apenas Malthus procurou encontrar uma razão para isso, que de facto não explica nada.

É preciso ver que este é antes de mais um livro de história económica. O intuito é a descrição dos fenómenos, dos debates políticos, das legislações aprovadas que criaram as condições para o eclodir da Revolução Industrial. A Polanyi não interessa a história das máquinas inventadas e o surgimento das primeiras manufacturas; também não lhe interessa quem adquiria os produtos saídos das primeiras fábricas inglesas (na ocorrência os portugueses recentemente enriquecidos com o ouro do Brasil). A sua análise concentra-se nos efeitos sobre a sociedade inglesa, ou melhor sobre a destruição da sociedade inglesa. É a Grande Transformação. E de como a sociedade foi pouco a pouco reagindo, umas vezes com excelentes intenções e péssimos resultados, outros com maior sucesso.

É precisamente a partir das evidências históricas, do esforço de compreensão do que se estava a passar, que o autor vai elaborando as suas conclusões sobre a forma de organização e de regulamentação do sistema capitalista. Sob este prisma, o sub-título é particularmente feliz. E aqui os elementos que mais cedo evidenciaram a necessidade de intervenção dos poderes públicos, foram a regulamentação do mercado de trabalho, deixando o trabalho de ser uma “mercadoria” como qualquer outra, o controle da emissão de moeda, evitando-se a oferta excessiva de liquidez, o aparecimento da inflação incontrolada e menos evidente, o controlo sobre o uso da terra.

Mas o interesse deste livro consiste precisamente no facto de evidenciar que as tentativas de evitar a pobreza chocante das populações forçadas a abandonar os campos para irem viver para cidades à procura de encontrar trabalho, qualquer trabalho a qualquer preço, nas cidades, terem sido feitas apesar de por vezes até produzirem os efeitos contrários aos desejados.

É a aprendizagem dos políticos, dos teóricos, das pessoas ligadas à Igreja Anglicana em encontrar soluções para um problema de que não compreendiam as causas que nos é apresentada.

Quando começam a surgir os consensos em torno de coisas tão evidentes hoje para nós, como a regulamentação do mercado de trabalho, somos introduzidos à emergência das primeiras ideias, como foram fazendo caminho pelas camadas da sociedade, até chegarem ao Parlamento Britânico e tornarem-se leis.

Ou seja, a demonstração é feita da necessidade dessa legislação e do penoso processo da sua aceitação. Não pela via teórica ou das boas intenções. Mas pela via penosa, trágica, vergonhosa, da história da Revolução Industrial e dos seus efeitos sobre a população inglesa e da destruição de todo o equilíbrio antes existente.

Sob este ponto de vista é um livro exemplar. A História e a teoria económica andam a par e justificam-se uma à outra. O liberalismo total e absoluto preconizado pelos primeiros teóricos é confrontado com a evidência histórica, que por sua vez vai obrigar a reflectir sobre essas ideias e a forjar novas soluções.

Polanyi não é um adversário do sistema capitalista, como o foi Karl Marx. Mas se este livro não teve o percurso de “O Capital” nem por isso este é um livro de muito maior clarividência. Porque “A Grande Transformação” é também a história da capacidade regenerativa do sistema capitalista. Talvez mesmo a primeira vez que o sistema é exposto sob esta luz, quem sabe se sem a perfeita consciência disso por parte do autor.

A história da evolução industrial na Europa continental não teve o mesmo percurso que em Inglaterra nem as ideias liberais tiveram a mesma audiência acrítica. Na Alemanha de Bismark foram introduzidas as primeiras leis protectoras da doença e da velhice dos operários. Nunca em França ou nos países do Sul da Europa se chegou aos extremos a que se chegou em Inglaterra. O facto de ter sido a Inglaterra a dar os primeiros passos na revolução industrial permitiu que os seus vizinhos continentais evitassem os erros cometidos.

Hoje conhecemos melhor como funciona o sistema capitalista. Mas esta será talvez a melhor e mais actual lição do livro: é que o sistema capitalista necessita de uma permanente avaliação, de uma reflexão constante sobre o seu funcionamento, sobre a melhor forma de introduzir condicionantes e limites de acção.

Esta é a tarefa dos economistas. Que por definição estão sempre aquém da realidade, sempre longe de compreenderem a enorme complexidade das economias, o mistério da eficiência dos mercados. É graças ao humilde trabalho dos bons economistas que já não estamos na situação em que alguém pensava genuinamente que a pobreza e o desemprego dos ingleses daquela época se devia ao facto de beberem chá!