PORTUGAL O Pioneiro da Globalização: A Herança das Descobertas, por Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas

Um livro (Centro Atlântico., 2.ª Edição, V.N. Famalicão, 2009) verdadeiramente fascinante acerca do período da Expansão marítima portuguesa. Uma abordagem inovadora e abrangente torna os primeiros capítulos deste livro uma leitura indispensável para os estudiosos e para os jovens que queriam aprender como os nossos antepassados souberam tornar um pequeno e marginal território, escassamente habitado, numa potência mundial. De todos os países criadores e provocadores de ondas de ciclo longo, ondas de Kondratiev, Portugal foi um caso único pela sua reduzida dimensão.

Eis um livro excelente sobre um tema que tem enchido milhares de páginas. E no entanto consegue ter o mérito de ser muitíssimo interessante, inovador e estimulante.

O propósito do livro assenta na apresentação de uma História bem conhecida e relatada por muitos historia- dores, mas numa perspectiva muito inovadora e moderna. Não procura apresentar novos factos históricos, nem sequer novas interpretações de factos conhecidos. As polémicas entre os historiadores são apresentadas sem que os autores pretendam tomar partido. Nada disso é verdadeiramente relevante para o livro. Procura-se simplesmente de dar uma nova luz, uma análise dos acontecimentos com base em conceitos mais habituais na teoria económica, na Estratégia, no estudo das relações internacionais e na actualidade da Globalização, para defender a tese, perfeitamente demonstrada, de que Portugal nos séculos XV e XVI foi de facto o pioneiro da Globalização.

A Portugal é atribuída a responsabilidade de desencadear as ondas K 9 e K10 (de Kontradiev, o economista russo que em primeiro lugar estudou o fenómeno dos ciclos longos), ou o ciclo CL 5 na terminologia dos autores, devido aos efeitos prolongados de que as diversas inovações dos portugueses provocaram sobre o sistema mundial. E é um facto que as inovações foram numerosas e de grande impacto. Como os autores descrevem com minúcia Portugal inovou em quase todos os campos do conhecimento de então. Desde a ciência náutica, com a invenção da vela latina (de algum modo subalternizada pelos autores), da caravela, da nave fortificada, à Botânica, à Geografia, à Astronomia, ou à Matemática, os portugueses de então deram verdadeiros saltos nos conhecimentos que então ainda se apoiavam principalmente nos autores gre- gos e latinos.

A cartografia evoluiu espantosamente em poucos anos. A forma como combater em mar aberto sofreu uma revolução, de tal modo rápida que permitiu aos portugueses da época, em reduzidíssimo número, controlar o Atlântico e o Índico. Os portugueses eram tão bons marinheiros, que mesmo após o período áureo da expansão portuguesa foram servir os reis de Espanha, de que o mais conhecido é talvez Fernão de Magalhães, e o menos reconhecido Luís Vaz de Torres, o primeiro a atravessar o estreito entre a Austrália e a Papua Nova Guiné, e de que até os autores se esquecem.

O interesse do livro está precisamente nisto: apresentam as inovações como algo sistémico, algo que surgiu, não por acaso, mas porque os portugueses, desde a casa real aos mercadores, aos aventureiros e aos cientistas atraídos pelo País, criaram as condições para que todas as inovações fossem aparecendo, inovações não viradas para situações em abstracto, mas para a realidade e para os problemas que tinham que ser enfrentados.

Lendo o livro, é como se estivéssemos a ler um manual de boas práticas escrito por algum autor especialista em organização da inovação. Tudo o que deveria ser feito para o sucesso da operação foi feito. Por veze com improviso, com erros e aproximações, mas foi feito. E em grande parte, a tese dos autores assenta no facto de os portugueses terem criado um espaço em rede, em vez de quererem criar um espaço em que dominassem completamente.

Este aspecto é uma das marcas mais salientes do livro. A historiografia económica portuguesa, desde Oliveira Martins, a J. Lúcio de Azevedo e mais recentemente Vitorino Magalhães Godinho consideraram o facto de os portugueses se terem limitado a controlar os mares, alguns portos e pontos estratégicos, e de terem sobretudo procurado comerciar, uma das fraquezas do nosso modo de gerir a área em que circulávamos. Em vez de criar e produzir, negociávamos. Em vez de dominar e controlar, estabelecíamos pactos e alianças. A criação e manutenção da rede, sem algo mais substancial, como produções locais e controlos políticos mais firmes poderia ser uma vulnerabilidade intrínseca que levaria, ao declínio e perca de posições.

Sinal dos tempos, é este estabelecimento em rede que é agora valorizado. Não fomos apenas precursores na globalização. Soubemos ou intuímos que o que importa não é o total controlo dos territórios, como fizeram os espanhóis depois de nós na América Latina e na Europa Central, mas sim o controle dos mares, da informação, da circulação dos bens.

E para isso servimo-nos dos instrumentos bem conhecidos da Estratégia: a informação e a contra informação. A espionagem. A diplomacia soft power (acordos comerciais e de defesa), e o exercício do hard power (presença militar, sempre com superioridade técnica e táctica) assim que necessário.

Tudo isto está bem exposto, descrito, e analisado neste livro. Mais. Este livro tem ainda o mérito de ser moderno noutro sentido. A exposição, que segue em geral a cronologia dos acontecimentos, é formada por pequenos capítulos, no final dos quais nos é apresentada uma lista das principais ideias chave a reter. Deste modo, quem tenha lido o livro e mais tarde queira recordar-se de algum ponto tem aqui um meio muito fácil de se reactualizar.

Cremos que este livro é especialmente bem conseguido nos primeiros capítulos, que correspondem à parte relativa ao início da expansão e aos novos métodos de análise macro, por ciclos, que são então descritos. Porém, à medida que avançamos na História e no corpo do livro, começamos a deparar com uma descrição detalhada e maçadora de crises dinásticas e outros eventos que contribuíram para o longo período de decadência portuguesa. É certo que um sub-título é precisamente “A Herança das Descobertas” tema que surge principalmente na parte final do livro, claramente o menos interessante.

À espantosa descrição do início da expansão, e sobretudo dos métodos e meios que a permitiram, os autores resvalam para uma análise sequencial e descritiva quando abordam o período da decadência. É como se tudo se devesse a uma série de acontecimentos fortuitos, sem lógica entre si, limitando-se os monarcas portugueses e outros responsáveis a tentar lutar contra o inevitável. Falta aqui uma perspectiva histórica como a que nos é oferecida nas duas ou três primeiras partes do livro.

Alguns autores, como António Sérgio ou José António Saraiva foram dos mais críticos em relação ao apa- recimento da Inquisição em Portugal. A. Sérgio faz um retrato devastador do sec. XVI em Portugal. J.A. Saraiva atribui à Inquisição o papel de esmagamento de uma nova classe emergente, a burguesia nascida do comércio das Índias e do Brasil. Ora os autores referem-se vagamente à Inquisição, quando menciona alguns livros importantes de autores portugueses daquele período que só passados alguns anos, mesmo centenas de anos foram publicados, e muitos em tipografias estrangeiras. A contribuição da Inquisição para a decadência portuguesa é apresentada como marginal e sem consequências, o que nos parece um erro factual.

E isto é tanto mais importante quanto a perseguição dos judeus portugueses, levou-os a estabelecerem-se em Amesterdão e no Reino Unido, onde, com o conhecimento que tinham dos negócios do Brasil e do Oriente formaram um corpo de comerciantes que foram os primeiros a verdadeiramente actuar internacionalmente. A construção da cidade de Nova Amesterdão, primeiro nome de Nova York, não foi alheia a esses pioneiros da globalização. Que tenham sido expulsos de Portugal, no momento em que Portugal era o pioneiro da globalização, terá sido um dos elementos que mais profundamente marcou o início da nossa longa decadência.

Uma outra questão que deveria merecer alguma atenção. É certo que Portugal estabeleceu um Império em rede. E que isso teve imensos méritos. Mas a incapacidade dos portugueses para actuarem de outra forma que não a simples intermediação, conduziu-os a uma situação completamente diferente mais tarde. Com a descoberta do ouro do Brasil, Portugal mais uma vez beneficiou de uma prosperidade enorme. Simplesmente o ouro do Brasil, para além da divulgação da talha dourada pelos cantos mais escondidos do território, veio a permitir que Portugal adquirisse os têxteis que os ingleses começaram a produzir industrialmente pela primeira vez. Deste modo ao aumento da oferta proporcionado pela produção industrial correspondeu o aumento necessário da procura. Portugal contribuiu assim, literalmente a peso de ouro, para que a Revolução Industrial tivesse sucesso. Por esta via, mas já apenas como utilizador e não como agente, teve o seu papel no aparecimento do CL 8 resultante da Revolução Industrial. Este aspecto, muito pouco estudado, poderia beneficiar de uma melhor atenção dos autores.

Finalmente o livro poderia ainda aproveitar-se da oportunidade que tem sido a Exposição “Encopassing the Globe” inaugurada em Washington em 2007, exibida posteriormente em Bruxelas e depois em Lisboa, para evidenciar, para além dos biombos Nambam, a mútua influência artística entre os portugueses e os povos africanos, indianos, brasileiros, chineses e japoneses com quem contactaram naquele período. A globalização também se deu, e continua a dar-se, nas artes, e também aí, aparentemente, fomos pioneiros.

Resumindo este livro fascinante abre imensas portas e pontos de vista. Alguns foram bem estudados pelos autores. Outros certamente poderão ser introduzidos numa, assim o esperamos, nova edição.