Pensar Depressa e Devagar, por Daniel Kahneman

Daniel Kahneman é um psicólogo que ganhou o Prémio Nobel de Economia em 2002. Este livro (Temas e Debates, Lisboa, Março de 2012) é na verdade um livro de psicologia, em que o essencial das descobertas do autor são apresentadas de uma forma acessível a todos os interessados. Para um economista, o interesse do livro reside no facto de a psicologia da decisão aqui exposta contrariar substancialmente os pressupostos da teoria económica. São estes os ingredientes que farão rever, para melhor, os trabalhos dos economistas.

É um livro extenso, detalhado, bem escrito e de leitura agradável. No final, em anexo, somos presenteados com a publicação dos dois artigos escritos pelo autor em conjunto com Amos Tversky que fundamentaram a sua escolha para o Prémio Nobel. Um economista que não deseje aprofundar os seus conhecimentos em psicologia, pode limitar-se a ler, além destes dois artigos, a Primeira Parte, onde os conhecimentos básicos são apresentados e a Quarta Parte que lida mais especificamente com questões económicas.

Um economista foi ensinado desde o início dos seus estudos que o fundamento do sistema capitalista é que as pessoas querem ganhar, querem aumentar a sua riqueza ou rendimento, que são racionais nas suas escolhas, indiferentes à forma como as coisas lhes são apresentadas porque as suas decisões dependem exclusivamente da análise fria e objectiva dos potenciais custos ou perdas, e benefícios ou perdas.

Pois bem. Para Kahneman tudo isto está errado. Não somos racionais nas nossas escolhas, somos sensíveis à forma como nos são apresentadas as opções, e espantosamente não estamos nada ou quase nada interessados em ganhar, mas sim em não perder, que é uma coisa muito diferente.

Comecemos por esta última questão. O sistema capitalista assume que estamos dispostos a sacrificar o consumo de hoje, acumulando capital, para beneficiar mais tarde dos ganhos da nossa acção. A ideia de que estamos dispostos a arriscar, investindo em tempo e dinheiro, para obter ganhos futuros não encontra grande suporte nas experiências do autor que conduzem a um resultado radicalmente diferente: somos muito pouco activos na procura do ganho, mas disponíveis para arriscar quando se trata de evitar perdas. Ou melhor, perante um ganho reduzido mas certo e um ganho elevado mas incerto, preferimos normalmente não arriscar e optar pelo pequeno ganho seguro. Nas perdas a situação inverte-se: optamos por arriscar, mesmo com uma pequena probabilidade, quando enfrentamos perdas elevadas, mas repudiamos uma qualquer perda, mesmo que pequena, que se apresente como certa.

Veja-se o caso que tem sido discutido em Portugal da permanência ou não na zona euro. Para alguns ilustres economistas portugueses Portugal deveria abandonar o euro e adoptar uma moeda nacional; isso traria grandes prejuízos no imediato, mas enormes benefícios no futuro. O caso da Argentina é frequentemente citado neste contexto. Para outros ilustres economistas mais vale continuar no euro porque isso nos traz vantagens de estabilidade e segurança muito relevantes no longo prazo. E agora perguntemo- nos sobre quem está a ganhar este debate. Sem qualquer dúvida os defensores da continuação no euro, ainda que com um período de ajustamento difícil. Ninguém quer ouvir falar em prejuízos elevados e imediatos.

Outra situação onde as análises de Kahneman são valiosíssimas encontra-se na extraordinária importância que tem a descrição das opções em presença num determinado problema. Se o problema for descrito como um ganho potencial, pouca motivação provoca; mas se for apresentado como de evitar uma perda então somos mais inclinados a agir. É nesta categoria que o autor inclui os seguros. Feitos os cálculos pouco beneficiamos dos seguros que fazemos; mas como nos são vendidos como instrumentos que evitam pesadas perdas potenciais todos somos felizes subscritores de apólices inúteis para benefício das companhias de seguros.

A descrição é fundamental também nas decisões de investimento. O incentivo para apresentar resultados favoráveis, mas altamente improváveis, encontra explicação nesta teoria: se não forem mesmo muito favoráveis, não há razão nenhuma para tomar qualquer iniciativa. Temos um exemplo demonstrativo em Portugal com as chamadas SCUT’s. Umas previsões de tráfego optimistas e uns benefícios exagerados sobre o progresso económico das regiões do interior, serviram se suporte a decisões que verificamos agora estarem erradas.

Estas breves descrições imperfeitas e rudimentares dos exemplos múltiplos descritos neste livro servem não só para questionar os fundamentos da teoria económica, mas também para os profissionais de marketing, que podem encontrar aqui matéria muito mais útil para o exercício da sua profissão que nos inúmeros livros de marketing que enchem as prateleiras das livrarias e papelarias. Um livro de enorme utilidade e oportunidade. Mas um livro que requer tempo, paciência e abertura mental.