Linhas de Fractura, por Raghuram M. Rajan

Como o título indica, o propósito do livro (Babel, Lisboa 2011) situa -se na tentativa de explicação das principais causas de instabilidade da economia mundial. A expressão linhas de fractura, importada da terminologia geológica, significa precisamente as fracturas geológicas que podem dar origem a tremores de terra. É por isso um livro em que mais do que procurar encontrar as causas imediatas da recente crise financeira, embora não as descure, o autor procura antes discernir e apontar as situações que podem, têm o potencial, para desencadear crises económicas.

Como o título indica, o propósito do livro situa-se na tentativa de explicação das principais causas de instabilidade da economia mundial. A expressão linhas de fractura, importada da terminologia geológica, significa precisamente as fracturas geológicas que podem dar origem a tremores de terra. É por isso um livro em que mais do que procurar encontrar as causas imediatas da recente crise financeira, embora não as descure, o autor procura antes discernir e apontar as situações que podem, têm o potencial, para desencadear crises económicas.

O autor é Professor numa prestigiada Universidade americana, que normalmente constitui desde logo um bom motivo para se ler os seus livros. Acresce neste caso que este livro foi escrito pouco tempo depois de o autor ter deixado as funções de Economista-Chefe do Fundo Monetário Internacional.

Os Estados-Unidos, o Japão, a China, a Europa são observados sob uma luz crítica e esclarecedora, as características dos respectivos sistemas económicos e políticos indicadas, analisadas, dissecadas. E o comportamento de cada um destes blocos económicos posto em confronto uns com os outros. Para se poder extrair concluir sobre as implicações para a economia mundial.

É bastante evidente para um leitor minimamente informado que todo este conhecimento acerca das assimetrias de diferentes blocos e das suas idiossincrasias, foi certamente adquirido no FMI, porventura o melhor lugar para se obter uma visão abrangente do comportamento da economia mundial.

Embora não seja conhecido como tal, o autor afirma logo no princípio que tinha previsto o rebentar da crise. O que posso confirmar porque assisti a uma sua conferência em Washington, no verão de 2007, quando ele ainda exercia funções no FMI em que não deixou quaisquer dúvidas sobre a sua bem demonstrada antecipação dos acontecimentos.

Além do mais, o livro tem a vantagem de permitir que nos apercebamos como a visão do FMI sobre a economia mundial está muito longe daquilo que muita imprensa lhe atribui. O que neste momento é um conhecimento muito útil para os portugueses.

O autor é bastante crítico sobre os Estados-Unidos; em particular sobre a ausência daquilo a que chama “rede de segurança” que em Portugal podia muito bem chamar-se Estado Social. E que é uma das razões, senão a primeira razão para que a crise tenha surgido nos EUA. E quem não entender como a ausência de uns sistemas de segurança social e de saúde universal nos EUA pode ter consequências tão devastadoras para o Mundo, então o melhor é mesmo ler este livro.

Mas a obsessão de muitos países, a começar pelo Japão, pelos emergentes, pela China, em assentar o crescimento económico nas exportações, descurando o consumo interno, é igualmente objecto de uma análise crítica muito arguta, sendo as implicações para os próprios países que optaram por essa estratégia e para a economia mundial apresentadas de uma forma que deixa poucas dúvidas dos seus efeitos nefastos.

É por aqui que o livro, implicitamente, tem algo de pessimista. O autor indica-nos quais as opções económicas mais consentâneas com um crescimento económico mundial sustentável. A cada bloco económico há orientações bem específicas. Mas é bastante evidente para o autor assim como para qualquer leitor informado que as opções indicadas não serão facilmente seguidas pelos países em causa.

A razão de ser do título do livro encontra-se nesta contradição: as causas, as linhas de fractura, permanecem, mesmo que alguns ajustamentos pontuais sejam feitos para amortecer os efeitos desta crise. E porque permanecem, tal como as fracturas geológicas, podem estar adormecidas durante décadas. Até que um dia, um evento insignificante as conduz para um novo tremor de terra.

Mas não encontramos neste livro nada que se assemelhe a uma noção ideológica, tipo crise do capitalismo. E nem sequer é um livro pessimista. É sim um livro muito realista e objectivo. Porque para o autor há de facto soluções à vista. A questão é pô-las em prática.