Crash 1929, por John K. Galbraith

Este livro de Galbraith (Gestão Plus. Lisboa 2009), economista muto conhecido nos anos 60, tornou-se num estudo clássico da crise desencadeada pela queda da bolsa de Nova York em Outubro de 1929. Quem quiser fazer comparações com as atitudes então tomadas pelos agentes bolsistas, políticos, jornalistas com as que foram tomadas no rebentar da crise de Outubro de 2008 este é o livro que deve ler.

Publicado pela primeira vez em 1954, uns bons 20 anos após a crise, o livro foi ainda assim suficientemente próximo para que as memórias de muitos dos intervenientes e sobretudo das vítimas do crash estivessem frescas. Assim, apesar de ter um carácter quase de relato fiel e circunstanciado dos acontecimentos, já está suficientemente longínquo para que o autor possa olhar para esse período com uma postura distante, crítica e sobretudo irónica.

O livro é de uma precisão notável. É como se estivéssemos a ver um filme, uma narrativa linear e contínua dos acontecimentos, com detalhes de movimentos bolsistas, comentários de jornalistas, declarações de grandes empresários, e até acções de especuladores. De alguma forma, poder-se-ia emprestar o título de um livro de Gabriel Garcia Marquez e intitulá-lo Crónica de uma Crise Anunciada. Porque a descrição minuciosa parte de um princípio cujo fim já se conhece: sabe-se de antemão que o boom bolsista de 1928 e 1929 vai acabar em desastre. O que por sua vez permite ao autor usar de uma ironia espantosa. Ao longo do livro, em diversas ocasiões, somos tentados a sorrir, da ingenuidade, da incapacidade, da cupidez, da psicologia colectiva que fez inúmeros americanos apostar na bolsa, convencidos de que, acontecesse o que acontecesse, os valores das acções só podiam subir. Não existe nenhum livro com este grau de perspicácia e de profundidade de análise apesar da aparente facilidade de escrita que se lhe possa comparar. E por isso, é um estudo indispensável para a compreensão do crash.

Dito isto, será um livro útil e interessante para os dias de hoje? Seguramente menos do que se poderia esperar. O mundo mudou muito, a regulação das bolsas, na verdade iniciada após este crash, com a criação da Securities and Exchange Comission, é moeda corrente, e a maior transparência dos dados financeiros das empresas cotadas, indicam-nos que estamos noutro patamar. As acções das autoridades de então provaram ser totalmente contraproducentes: a incapacidade em compreender os efeitos nefastos da crise bolsista sobre o comportamento da economia levou a algumas das decisões mais estúpidas de política económica que se conhecem, lição que entretanto foi muito bem entendida.

No entanto, se quisermos encontrar neste livro argumentos para provar que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos podemos encontrar motivos para alguma satisfação. Esqueçamos os instrumentos financeiros, as autoridades políticas, os jornalistas económicos, e resta um ponto comum: a apetência em ganhar em bolsa aquilo que não se consegue obter por via do trabalho duro. A bolsa vista, não como uma forma de remuneração do capital investido, mas como forma de adquirir mais-valias sem esforço. Ou seja, quando na bolsa imperar mais o investimento especulativo que a aquisição em activos portadores de remuneração, quando o que interessa não é o que se possa obter com a detenção de um título, mas apenas o que se possa beneficiar com a valorização do seu preço. Porque neste caso, é o movimento especulativo que se alimenta a si próprio. E chegará sempre o momento em que o valor dos títulos não tem correspondência com a realidade das empresas e das economias. Em termos técnicos, os rácios Price/Earning assumem valores completamente irrealistas e alguém dará por isso. Mas isto também nos diz outra coisa: que apesar dos esforços regulatórios que agora estão a ser desenvolvidos, enquanto houver mais pessoas a quererem especular do que esperar pela remuneração do capital, haverá sempre razões para booms e busts, euforias e crises, risos e lágrimas. E a bem deste livro, este aspecto da psicologia humana é-nos descrito com uma ironia e mesmo com um sarcasmo incomparáveis.