Capitalismo 4.0, por Anatole Kaletsky

Anatole Kaletsky é um conhecido comentador económico do Jornal The Times e consultor. É portanto alguém que segue de muito perto a evolução da economia mundial e suficientemente arguto para ter adquirido um estatuto de analista a seguir.

O livro que foi agora publicado em Portugal (Aletheia Editores, Lisboa, Maio 2011) tem o propósito inteligente de procurar antecipar o tipo de sistema económico que decorrerá da crise, do que em analisar as causas da dita crise. Está orientado para o futuro e não para o passado, o que é uma útil distracção da avalanche de livros a explicar e justificar a crise.

E no entanto, apesar de tão bons propósitos, da expectativa em beneficiar das reflexões de alguém reconhecidamente informado e preparado, deparamos com um livro que é uma descrição infindável de generalidades, banalidades e inutilidades. Felizmente que aqui e ali aparecem algumas preciosidades, mas são raras e totalmente aleatórias.

É um livro que teria muito a ganhar se fosse reduzido pelo menos em um terço da sua dimensão, tivesse menos pretensas descrições históricas e se concentrasse mais no tipo de capitalismo que o autor antecipa. Isto leva -me a pensar que um leitor minimamente conhecedor da economia actual, tem tudo a ganhar se se limitar a ler apenas a última parte do livro, intitulada precisamente “o Capitalismo 4.0 e o futuro”.

O autor transmite muito pouco sobre história económica. A classificação dos diversos capitalis- mos em 1, 2 e 3, é assutador. Na verdade, o autor está mais á vontade na descrição do tipo de concepções económicas e preconceitos ideológicos existentes no mundo ocidental após a II Guerra Mundial.

Em relação à União Europeia o autor manifesta ignorância e até mesmo a má fé, muito característica do Reino Unido. Onde se vislumbra a maior pertinência de análise é nas observações sobre a economia do Reino -Unido e dos Estados-Unidos da América.

De resto o livro foi obviamente escrito para um leitor médio inglês e norte-americano. E esse é a razão porque é um livro medíocre. Em vez de aprofundar os temas que na sua perspectiva são pertinentes para o futuro e em que manifesta a sua capacidade de análise, há uma montanha de informações e comentários pouco relevantes.

Mas em que consiste o dito capitalismo 4.0? Em pouca coisa. Ou melhor, em coisas que já sabemos há muito tempo. Para ele, a grande virtude do sistema é a sua capacidade de adaptação, de inovação, de transformação. Por isso acredita que passada a crise o sistema evoluirá para uma formulação que o tornará mais resistente e mais eficiente. Aqui revela uma concessão do capitalismo bastante optimista por um lado, mas igualmente realista.

Basicamente para o autor, no novo sistema haverá uma mais profunda colaboração e cooperação entre o sector público e o sector privado. Não haverá uma preferência total e absoluta por um dos sectores em detrimento do outro. As necessidades reguladoras por parte do sector público serão entendidas e aceites, enquanto as virtudes do funcionamento dos mercados serão bem percebidas. Não é que isto já não suceda na Europa, mas também nos EUA, a diferença é que a per- cepção da interrelação entre o Estado e o mercado é agora mais e melhor reconhecida, mais genericamente divulgada e executada.

Como o próprio autor afirma isto não é grande novidade. A novidade será o reconhecimento, a aceitação das funções de cada sector. O debate político será menos ideológico e mais pragmático. Mas 466 páginas em letra pequena para este resultado não parece grande feito.

Mais poderíamos pensar que chegado a esta parte o autor nos iluminasse com úteis e perspicazes reflexões sobre os sistemas de saúde, ou os sistemas educativos ou sobre os mercados de trabalho. Reflexões há, mas pouco adiantam. Claro que são necessárias reformas que contenham os custos e melhorem a eficiência destes sistemas.

Sobre exactamente como reformar, como melhorar o funcionamento destes sistemas apresenta algumas observações justas e certeiras, mas que ficam pela superfície, pela rama. Nalguns casos, parece tomar os seus desejos, bem fundamentados e partilháveis, por realidades políticas. É porque julga ter boas ideias e só porque são boas, os políticos irão imediatamente adaptá-las. Sob este ponto de vista, há alguma ingenuidade do comentador e analista que nunca teve que enfrentar a realidade crua dos factos. Mas sim, apesar de tudo é aqui que se encontram algumas das páginas mais interessantes do livro.

Se conseguir que alguém lhe empreste este livro, ou o requisitar de alguma biblioteca, as últi- mas 100 páginas são as únicas que vale verdadeiramente a pena ler deste livro.