A ferida do outro: Economia e relações humanas, por Luigi Bruni

Bruni é um Professor de Economia, Filosofia da Economia e História do Pensamento Económico na Universidade de Milão -Bicocca. Tem diversos estudos publicados em italiano e em inglês sobre economia e sociedade. Este livro (Cidade Nova, Abrigada, 2010) traduzido em português por uma equipa de 4 especialistas, o que é bem raro ver entre nós, encontra -se no cruzamento entre Filosofia e Economia. Apesar de não ser explícito, é muito evidente que se segue uma perspectiva cristã de olhar o mundo, a sociedade e a economia.

O ponto de partida é precisamente o paradoxo da felicidade: estudos empíricos demonstram que as pessoas não se consideram mais felizes à medida que aumentam o seu nível de rendimento. Ora este é precisamente um dos aspectos fundamentais de todo o pensamento económico e do funcionamento dos mercados. Seria na satisfação dos seus próprios interesses que as pessoas poderiam obter ganhos para si e para a sociedade em geral. Por esta razão, o aumento progressivo e constante dos níveis de rendimento seria uma condição necessária para o aumento geral da felicidade. A correlação entre riqueza e felicidade humana é um dos pressupostos que postula a teoria económica e quase tudo o que se escreve com o nome de economia se refere à forma como aumentar a produção e o rendimento.

Mas se não for verdade esta correlação, senão sempre, pelos menos a partir de um determinado nível de rendimento, então o fundamento da economia perde um dos seus alicerces principais. O livro procura precisamente entender melhor como o funcionamento do sistema de mercado é insuficiente para contribuir para a felicidade humana.

É aqui que entra o tema fundamental deste livro: não é o crescimento económico ou a eficiência dos mercados ou ainda a luta contra a pobreza. O que interessa ao autor é encontrar formas de ultrapassar o paradoxo da felicidade, ou de uma forma excessivamente simplista como se pode ser rico e feliz.

Quererá isto dizer que o livro se preocupa apenas com os que já são mais privilegiados, pelo menos financeiramente? Sim, no sentido de que o paradoxo da felicidade se encontra, segundo suspeita o próprio autor, a partir de um determinado (embora impreciso) nível de rendimento. Mas ao mesmo tempo, as vítimas deste paradoxo são pobres, não no sentido da posse de bens, ou melhor de mercadorias, mas na ausência daquilo que o autor denomina de bens relacionais.

Bens em que o elemento principal é o relacionamento entre seres humanos diferentes, bens gratuitos e recíprocos, que se operam (trocam) simultaneamente, motivadores porque o bem relacional é um fim em si e não apenas um meio para alcançar outro objectivo qualquer.

Para o autor, será a busca incessante de novas riquezas com o fim de obter de maiores rendimen- tos, a principal razão que explica o paradoxo da felicidade. A necessidade de gastar mais tempo em trabalhar para aumentar o rendimento reduz a capacidade e oportunidade de usufruir de bens relacionais com outros.

É uma tese interessante, muito bem fundamentada, mas que se afasta daquilo que habitualmente consideramos ser a teoria económica. O que o autor defende é que nas sociedades ocidentais mais prósperas deveria haver mais tempo para os relacionamentos gratuitos, para a acção motivada exclusivamente para a aproximação do outro e da satisfação das suas necessidades.

Além disso o autor é crítico em relação a certas formas modernas de relacionamentos virtuais, via televisão ou internet, em que aliás elabora reflexões bastante interessantes. Para ele, este tipo de relacionamentos virtuais e inócuas, não corresponde à sua definição de bens relacionais, porque de facto não se verifica uma mútua interacção profunda, em que o outro pode ser motivo de insatisfação. A ferida (e a bênção) do outro é um ingrediente indispensável para a caracterização de um bem relacional.

O autor não condena o sistema capitalista. Infere -se apenas que é um sistema incompleto e que não pode aspirar a satisfazer todas as necessidades humanas. Não condena nem aprova o Estado de Bem-Estar, mais conhecido entre nós por Estado Social, criado no Ocidente a partir de segunda metade do século XX.

A sua reflexão situa -se no campo do indivíduo e das suas motivações. A procura do próprio interesse não se esgota na procura do benefício material individual. No funcionamento do mercado não se estabelecem verdadeiras relações entre os intervenientes. Alguém compra e alguém vende. É claro que há muitas situações em que ao acto material de compra e venda se junta um relacionamento entre indivíduos com interesses diferentes. Isso o autor sabe e elabora abundantemente

A tese defendida é que faltam bens relacionais ao dia-a-dia dos opulentos povos do Hemisfério Norte. Bens cuja procura e oferta não sejam motivadas por outra razão que não seja unicamente o relacionamento entre indivíduos. É isto, esta insuficiência que explica o paradoxo da felicidade. A solução consiste muito simplesmente em dar mais tempo à gratuidade, à cooperação, à partilha.

Por isso se compreende que para o autor o Estado Social não é a via para satisfazer a procura de felicidade, porque no estado social verifica-se exactamente o mesmo que no sistema de trocas do mercado. Alguém presta um serviço em favor de outro, sendo para isso pago pelo Estado. Não há em geral qualquer relacionamento entre quem presta e quem é servido.

Um bem relacional é um bem recíproco, em que o acto de prestar um serviço é o mesmo que ser servido. Toda a intervenção exterior é secundária e indiferente neste acto. Se repararmos bem, este tema da gratuidade atravessa toda a última Encíclica do Papa bento XVI, Caridade na Verdade. Suspeitamos que este livro e eventualmente outros deste autor tenham uma repercussão importante no Vaticano.

Este é pois um livro para quem tem um interesse pela doutrina social da Igreja. Mas contrariamente a textos anteriores dessa doutrina que tiveram efeitos significativos na elaboração de políticas económicas e sociais e na concepção do Estado Social, não será este o caso agora. Não há nenhum programa político ou doutrina económica ou social. Há uma reflexão sobre a natureza humana e sobre a sociedade e a economia. Mas apenas se tomam em consideração posicionamentos individuais.